Primórdio com outra pergunta: porquê inaugurar a dizer não e sustentar o incômodo do parceiro? Acredito que leste seja o grande repto. Muitas vezes preferimos sustentar o nosso desconforto a mourejar com o desconforto de quem amamos, porque involuntariamente associamos atrito à dor —porquê se nosso limite pudesse desestabilizar a relação. Mas será que existe relação verosímil onde não há espaço para o seu “não” e o seu incômodo? Ou melhor, será que existe relação verosímil onde o seu “não” é ouvido porquê sinônimo de “não te senhoril”? Quem está machucando quem? Você que diz não ou o parceiro que se ressente toda vez que escuta?
A dificuldade de expressar não está ligada à forma porquê nos vinculamos. Por mais que acreditemos ter superado o mito do amor platônico —seres incompletos buscando a metade perdida— ainda romantizamos a similaridade e a simbiose. “A gente combina muito: nutriz vinho rosé, prefere Caetano a Chico, só toma moca coado…” É o novo “ele é minha psique gêmea”. Confundimos paixão com afinidade absoluta, afinidade com espelhamento. Mas esse falso espelhamento porquê tentativa de prometer paixão é muito anterior à sua playlist planejada só com “Transa“, do Caetano, no primeiro encontro —exatamente porque você o stalkeou e sabia que era o álbum predilecto dele. Começa lá detrás, na relação com nossos pais.
A psicanálise nos ensina que nos constituímos a partir do olhar do outro. Desde pequenos, buscamos nos olhos de nossos cuidadores um revérbero que nos diga quem somos. Assim, tentamos ser “iguais” para prometer vínculo e evitar ruptura porque, na nossa cabeça, a diferença é sinônimo de conflito, e conflito pode valer orfandade.
Não pensamos assim por eventualidade. Crescemos numa lógica que associa obediência ao paixão e à validação. Aprendemos a ser “boas meninas” e “bons meninos” sendo “bom” sinônimo de “fazer exatamente o que se esperava de nós”, não dar trabalho e engolir o pranto, silenciando nossos desejos e vontades. Com isso, passamos a deleitar amigos, professores, chefes e namorados, reproduzindo uma lógica que supunha que a docilidade fosse uma virtude universalmente desejável. E era…
Infelizmente, o “não” não incomoda só o parceiro abusivo hoje, ele nos afeta desde cedo. Na puerícia, discordar era ser “malcriado”, e violar significava punição: caras feias, castigos e, principalmente, desamor. Assim, internalizamos que não atender aos desejos de quem amamos pode fazer com que nos amem menos.
É porquê se associássemos frustração à repudiação. E quebrar as expectativas do outro expõe uma outra ruptura também incômoda: a do nosso ideal de eu. Ser o parceiro que frustra é penetrar mão de ser a “namorada perfeita”, o “companheiro ideal”. O “não” escancara a falta —não de carinho ou consideração, porquê o manipulador pode sugerir, mas a falta que habita todos nós. A ferida narcísica que revela que nunca seremos completos nem capazes de atender a todos os desejos do outro. Sustentar nossa insuficiência é tão difícil quanto encarar o desconforto do parceiro.
Seu não dá voz a alguma coisa que está posto, mas evitamos mourejar: você não vai dar conta de tudo nesse paixão. E esse não dar conta pode ser sentido porquê traço de humanidade ou porquê presságio do término… Infelizmente andamos mais alarmados do que humanos.
E quanto mais calamos nossos nãos, mais alimentamos a ilusão de que a relação se sustenta a partir dos nossos sims. Para evitar o risco do solidão, pagamos o preço de um silenciamento jacente —sem perceber que quem está desmoronando somos nós cada vez mais sobrecarregados, ressentidos, invisibilizados, impotentes… Para aonde vai o incômodo que você sufoca? Qual é o peso desse paixão ligeiro que você está tentando erigir com a privação dos seus nãos? Mais cedo ou mais tarde, essa dinâmica se tornará insustentável. É preciso ousar mexer nas bases desse paixão, propor novos contornos que contêm com seus limites porquê símbolos de zelo, não de egoísmo.
Mudar estruturas nunca é fácil. Se você passou meses ou anos dizendo sim para tudo, ao quebrar essa dinâmica, é proveniente que haja resistência. A reação negativa do outro será quase inevitável —e isso não significa que você está inexacto ou machucando o parceiro. Talvez o outro reaja mal, e tudo muito. Dê um tempo para ele digerir e para você também.
Coragem. A dificuldade está justamente em sustentar o incômodo e incumbir na sua capacidade e na força da relação para cruzar essa arrebentação. Manifestar “não” não é rejeitar o outro, mas estabelecer limites —que não são muros, mas bordas que nos protegem de sermos engolidos pelo libido do outro. Boas relações não são as que não têm conflitos, mas as que têm conflitos com reverência e escuta.
Ao expressar não, não se justifique. Fale sobre o que sente e deseja, sem tentar tutelar uma tese. Você não precisa provar zero —unicamente ser vulnerável o suficiente para quebrar o ideal de parelha que nunca tem conflito. Vai ter desconforto, sim. Mas ao sustentar os nãos, abrimos caminho para relações com mais reverência e menos simbiose.
E se você também tem um dilema ou uma incerteza sobre suas relações afetivas, me escreva no colunaamorcronico@amorespossiveis.love. Toda quarta-feira respondo a uma pergunta cá.