Imagine-se tendo a oportunidade de se sentar com Fernanda Montenegro e conversar com ela sobre o teatro, o ofício de simbolizar e a oferta (ou maldição) de ser atriz. Você ouviria frases assim:
“Não se cumpre essa profissão sem devoção, sem obstinação, sem coragem. Eu sou uma obstinada.” “No palco, tudo acontece. Do mais torpe ao mais sublime.” “Já recusei muitos projetos. Mas um papel ou personagem por motivos éticos, de caráter, nunca. Já fiz de tudo: prostituta, vilã, assassina. Mas, quando aceito, tenho que fazer muito feito.” “Não é seu corpo que vai dominar a vocábulo. É a vocábulo que vai dominar o seu corpo.”
[Por que ser atriz]: “[Porque] Você não se conforma em ser só você.” “É uma profissão de absoluta solidão, em que o outro é fundamental. Buscar o outro, confundir-se com o outro, somar com o outro um só corpo.” “O outro [a plateia], na medida em que aceita o jogo artístico, também é um artista. Estão todos sentados, esperando serem chamados.” “Tenho sempre uma respiração com a plateia.” “Às vezes, nem a plateia tem talento, dizia Louis Jouvet.” “Dispêndio muito a decorar. Porque cada frase pode ser uma emoção.” “Eu idolatro o mistério inarredável de cada segundo que eu vivo.”
“Há sempre um espaço além da racionalidade.” “Há feitiçaria em todos nós.” “Por que não podemos exclusivamente ser mestiços, mestiços de corpo e espírito?” “Arlette [seu nome real] é um encosto. Fernanda pulou para fora de Arlette.” “Na vida, o que não é verosímil?” “Não sou marionete de nenhum responsável.” “Embora no teatro se repita, dia posteriormente dia, o mesmo gesto, a mesma intenção, repentinamente uma faísca inesperada de percepção revela outra zona a seguir —que depende de sua inquietação.” “Ah! A atriz é tão poderosa! Quando eu falo, eu tomo o poder.”
Fernanda disse tudo isso e muito mais para seu confrade de Academia Brasileira de Letras, Joaquim Falcão, no magnífico livro de Joaquim sobre ela, “Pausa & Linha — O Poder em Fernanda Montenegro”, recém-lançado pelas Edições Pinakotheke. Ela é assim.