Se ao final de 2005 você escalasse um time de investimentos, quem seria seu camisa 10: o índice de dividendos ou a renda fixa longa atrelada à inflação? A maioria, com excitação, escolheria as ações de dividendos. Por fim, quem não gosta de receber um “salário” regular da Bolsa? Mas, uma vez que mostram os dados, o título da partida ficou com outro jogador.
Na imagem supra, com base 100 em dezembro de 2005, vemos a evolução do IDIV (índice de dividendos da B3) e do IMA-B5+ (índice que representa os títulos públicos de longo prazo atrelados ao IPCA). Ambos os índices são construídos com reinvestimento dos fluxos de caixa — sejam dividendos ou juros. Ambos, portanto, entregam retorno totalidade: o somatório do fluxo com a valorização. A data 2005 foi escolhida em função do início do índice de dividendos da B3.
O curioso é que, em 2006, o cenário era muito semelhante ao atual. A taxa Selic beirava os 15% ao ano e o Brasil possuía um rating semelhante ao atual nas agências de classificação de risco. Muitos defendiam — uma vez que defendem agora — que esse é o momento ideal para comprar ações de dividendos. O raciocínio é sempre o mesmo: “a Selic está subida, mas vai tombar”. E, de vestimenta, caiu. De 2006 a 2013, o Brasil viveu uma das maiores quedas de juros de sua história.
Mas mesmo com o vento em prol, o IDIV não conseguiu maltratar o índice de renda fixa. Ao longo desses 19 anos, o IMA-B5+ entregou um retorno tapume de 15% superior ao índice de dividendos — e com muito menos volatilidade. E não foi por pouco tempo: de 2006 até 2016, o IDIV chegou a permanecer quase 50% detrás do IMA-B5+.
Vale lembrar que estamos comparando dois grupos de ativos que, teoricamente, têm a mesma proposta: oferecer fluxo de caixa recorrente e retorno de longo prazo. Um faz isso via lucros distribuídos pelas empresas; outro, via cupons de juros pagos pelo Tesouro. Mas, ao contrário das ações, o título público não depende de lucros, nem de desenvolvimento, e menos de humor do mercado. Basta ser repleto até o vencimento.
Muitos defensores do “dividendo supra de tudo” argumentam que o índice de dividendos tem empresas ruins. Mas será que o investidor geral, ou mesmo um gestor profissional, consegue consistentemente selecionar as boas ações e evitar as ruins? Os dados mostram que poucos conseguem. Embora, supostamente, o IDIV seja uma média, ele bate mais de 90% dos gestores profissionais e, provavelmente, proporção maior dos amadores. Ainda assim, o índice de dividendos ficou para trás.
A renda fixa de longo prazo, por outro lado, foi ignorada por muitos ao longo da última dezena — apelidada por alguns de “perda fixa”. Mas quem teve disciplina para mantê-la viu o patrimônio crescer, sem precisar de torcida a cada trimestre. Somente com o tempo e a paciência que os juros compostos exigem.
Fica portanto a provocação: será que investir em dividendos, em um país com juros estruturalmente elevados uma vez que o Brasil, é mesmo a melhor escolha para o investidor de longo prazo? Ou será que estamos exclusivamente repetindo narrativas antigas, ignorando os dados que contam outra história?
Se você tivesse que escolher de novo seu camisa 10 para os próximos 20 anos, manteria a mesma escalação? Ou daria chance ao jogador que sempre entregou, mesmo sem os holofotes?
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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